Fratura em terço distal da tíbia – Earl Thomas e seu pesadelo

ATUALIZAÇÃO (12/10)

O Thomas realizou uma cirurgia essa semana para colocar uma haste de fixação no local da fratura. Com isso, a recuperação será mais rápida e mais segura, reduzindo a chance de nova lesao. Como ele será Free agent próximo ano, essa decisão fará com que ele tenha mais tempo para se recuperar e voltar 100%. Acredito que isso seja um ato de despedida. [NOTA: ele tinha tempo em 2016, porque não fez isso antes? A decisão foi exclusiva de um dos lados – Thomas ou staff?].

Leiao texto original logo a seguir.

 

É uma tristeza eu estar aqui novamente escrevendo para vocês. Quando isso acontece é porque alguém sofreu uma lesão grave e precisa de uma maior atenção e este é o caso do Earl Thomas. Nosso mito – o real mito – da secundária sofreu, no estádio “zicado” dos Cardinals, uma nova fratura na perna e acredite se quiser: foi no mesmo lugar da fratura anterior, em 2016. Tentarei dizer o que existe em artigos científicos e o que se sabe sobre a reabilitação em fraturas de tíbia, bem como os caminhos que podem/poderiam/poderão serem tomados. Esse texto terá um caminho: 1) Anatomia da área; 2) Tipos de fratura; 3) Tipos de tratamento e; 4) Previsões de retorno.

 

ANATOMIA

O Membro inferior (MI) é dividido em COXA e PERNA. A Coxa é a parte superior do MI, onde fica o quadríceps e os isquiostibiais (posteriores da coxa) e possui um osso, o fêmur. A Perna é formada por dois ossos: Tíbia e Fíbula. A Tíbia é o osso grosso aí da imagem e fica no meio da perna; a Fíbula é a parte fina que está na área mais lateral.

Como a tíbia é considerada um osso longo, por questões didáticas e até para tratamento mesmo dividimos ela em três partes, ou melhor, três terços: proximal, medial e distal. Conte saindo do joelho para o pé, então o terço proximal está mais perto do joelho, o terço distal está mais perto do tornozelo e o terço medial está entre os dois (dã!). O que se sabe sobre a fratura do Thomas é que houve uma fratura entre o terço medial e distal em 2016 e esta de 2018 foi no mesmo local ou no máximo, bem próximo a anterior.

Existem inúmeros músculos que passa/originam/inserem na tíbia. Não irei me ater a eles, mas saibam que, até onde eu procurei sobre o caso Thomas, NÃO HOUVE LESÃO MUSCULAR E/OU LIGAMENTAR nesta fratura.

 

TIPOS DE FRATURA

Para a perna, os tipos mais comuns de fratura são:

Estável: Este tipo de fratura apresenta pouco deslocamento os ossos estão próximos e não tem a tendência de sair do lugar. As extremidades dos ossos estão alinhadas. Em uma fratura estável, os ossos costumam ficar no local durante a cicatrização;

Fratura deslocada ou desviada: Quando um osso quebra e é deslocado, as extremidades quebradas são separados e não se alinham. Estes tipos de fraturas geralmente exigem cirurgia para colocar os fragmentos ósseos de volta no lugar;

Fratura transversa: Este tipo de fratura tem uma linha de fratura horizontal. Essa fratura pode ser instável, especialmente se a fíbula também está quebrada;

Fratura oblíqua: Este tipo de fratura tem um padrão angular e normalmente é instável. Se uma fratura oblíqua é inicialmente estável ​​ou minimamente deslocada, ao longo do tempo pode desviar. Isto é especialmente mais frequente se a fíbula não está quebrada;

Fratura espiral: Este tipo de fratura é causada por uma força de torção. O resultado é uma espiral em forma de linha de fratura sobre o osso, como uma escada em caracol. Fraturas em espiral podem ser deslocadas ou estáveis, dependendo da quantidade de força que provocou a fratura;

Outros tipos são a exposta, a aberta e a cominutiva e para não estender muito o texto.

 

TIPOS DE TRATAMENTO

Para cada tipo de fratura existe um prognóstico diferente. Como o Thomas não fez cirurgia em 2016, eu acredito que houve naquele momento uma fratura transversa ou oblíqua do tipo estável. Uma dúvida que vocês devem ter neste momento é: “Qual o motivo de não fazer uma cirurgia em uma perna quebrada? ”. Para responder isso eu vou trazer dois estudos:

  • Uma revisão sistemática feita por Mallee e colaboradores (2015) comparou o tratamento cirúrgico e conservador (sem cirurgia) em vários tipos de fratura, inclusive da tíbia. Eles acharam resultados inconclusivos, ou seja, nada certo se é melhor fazer ou não fazer a cirurgia em fraturas anteriores da tíbia (tipo transversal.);
  • Labronici e colaboradores (2009) acompanharam 47 pacientes divididos em dois grupos – um fez cirurgia com fixação na fíbula e outro sem fixação na fíbula. Com relação ao tempo de consolidação não houve diferenças (ambos giraram em torno de 14 semanas).

 

O Thomas teve uma fratura em 2016, não faz cirurgia e fraturou novamente o mesmo local. Há sim essa chance de ocorrer, ainda mais por ser um atleta de alto impacto. Das fraturas por estresse na tíbia, cerca de 5-15% delas são do tipo anterior, mas se a pessoa for esportista esse risco aumenta em três vezes. O tempo de tratamento se contado desde o dia da lesão até a total recuperação pode chegar a 20 meses, em um estudo publicado por Johansson e colaboradores em 1992. A medicina avançou e esse tempo caiu drasticamente, mas cada caso é um caso. Para o Thomas nessa nova fratura, eu particularmente acredito em um tempo de recuperação menor que em 2016. Contudo, já estamos em outubro e faltam dois meses para o fim da temporada regular e isso deixa pouco tempo para o Thomas se recuperar. Os médicos só liberam para atividade física algo depois de 40 dias (tempo considerável para consolidação da fratura). Só nesse tempo já acaba a temporada.

Logo, eu não creio em um retorno do Earl Thomas neste ano (tanto que ele já está na injury reserve). O que vem a ser um problema agora são as condições dele para a próxima temporada. Mais uma vez, eu não acho que isso será um problema e ele deve conseguir um belíssimo contrato, seja em Seattle (do texto todo, isso é o mais difícil hahahaha) ou em outro time.

 

REFERÊNCIAS

Mallee WH et al. Surgical versus conservative treatment for high-risk stress fractures of the lower leg (anterior tibial cortex, navicular and fifth metatarsal base: a systematic review. British Journal of Sports Medicine 2015 Mar;49(6):370-376

Labronici PJ et al. Tratamento das fraturas distais da tíbia. Acta Ortop Bras. 2009; 17(1):40-5.

Johansson C, Ekenman I, Lewander R. Stress fracture of the tibia in athletes: diagnosis and natural course. Scand J Med Sci Sports 1992;2:87–91.

 

 

 

Texto publicado por João Victor Morais de Lima.

Fisioterapeuta pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN.

Mestrando em Ciências da Reabilitação pela UFRN.

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